Opiniões


Sérgio Coimbra - Meio Hora

A democracia é o melhor sistema político conhecido da humanidade. Entre as garantias democráticas estão a regularidade das eleições para alternância do poder e, condição essencial, que estas sejam livres.
A liberdade de voto, isto é, o direito de podermos escolher livremente em quem votamos - consoante as ideias que essa pessoa ou conjunto de pessoas (partidos) defendem - é uma das pedras onde assenta o sistema.
Em Portugal, há dois problemas nesta equação: primeiro, os portugueses votam em listas gerais dos partidos, não em pessoas (ninguém sabe quem é o n.º 2 de qualquer lista de qualquer círculo, quanto mais o 2.º!). Segundo, os eleitos são mais fiéis ao partido do que às suas consciências; e mesmo que não o sejam, o aparelho impõe essa regra nada democrática conhecida por “disciplina de voto”.
Os dirigentes partidários (que nestas matérias agem mais como chefes tribais do que como democratas) não costumam brincar com o assunto. Por exemplo, há disciplina de voto para o Orçamento do Estado - onde faz sentido, pois representa uma orientação política generalista - mas também há no caso do casamento entre homossexuais o que já não se compreende por se tratar de questões do moral e da alma de individuais. Mas o nosso representante (deputado) confrontado entre a sua consciência e a “disciplina de voto” raramente escolhe a primeira para não arriscar o lugar no Parlamento nas eleições seguintes. Portanto, para obedecer ao chefe, trai-se a si próprio e, de caminho, os eleitores que o elegeram. Mas ninguém disse que a democracia é perfeita.

José Ricardo Costa
Opinião no Jornal Torrejano
http://www.jornaltorrejano.pt/edicao/noticia/?id=1423&ed=645

Nada como estar na torre de um castelo para assistir ao espectáculo do mundo. Às vezes ponho-me a pensar no que iria escrever Montaigne se vivesse hoje em Portugal, mesmo que já não fosse a partir da torre de um castelo mas do alto de um apartamento. Por exemplo, como iria reflectir sobre as vaidades humanas.

A vaidade humana é coisa antiga. Já o Eclesiastes a invoca. O que já será mais original é o modo como se é vaidoso em Portugal. Em Portugal não se é apenas vaidoso pelo carro que se tem, a casa onde se vive, os restaurantes onde se mata a fome ou a roupa com que se tapa o corpo.

Em Portugal há um tipo de vaidade a que podemos chamar a síndrome de Arquelau. Num dos seus diálogos, Górgias, Platão põe Sócrates a criticar todos aqueles que, nos tribunais, usam a retórica para se poderem livrar dos crimes que cometeram. Sócrates discute com Polo, um sofista, que fica chocadíssimo com a posição do filósofo.

A sua reacção é mais ou menos esta: será possível dizer que, depois de roubar, matar ou mentir, é preferível ser condenado do que fugir com o rabinho à seringa? Rindo-se de Sócrates, Polo vai buscar o caso de Arquelau, um tirano da pior espécie que cometeu crimes horríveis, dizendo, claro, ironicamente e com ar de gozo, que Arquelau seria felicíssimo se fosse condenado e seria um desgraçadinho se fosse condenado.

Uma das coisas que mais me divertem é o ar orgulhoso e vaidoso de pessoas como Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro, Vale e Azevedo, Isaltino Morais ou Ferreira Torres, não só quando saem do tribunal mas, sobretudo, se forem condenados. Só me fazem lembrar o ar triunfante da Simone de Oliveira a chegar a Santa Apolónia vinda directamente do festival da Eurovisão.

Ora, as pessoas só são vaidosas se houver outras que as invejem. Robison Crusoe jamais seria vaidoso se continuasse sozinho na ilha. A partir do momento em que aparece um outro, sentimentos como a vaidade poderão então emergir. Ou seja, eu não sou vaidoso por ser o que sou ou fazer o que faço, eu sou vaidoso por haver quem veja o que sou e o que faço e, mais ainda, por haver quem inveje o que sou e o que faço.

É exactamente isso que se passa com os portugueses. Há países onde ser acusado de fugir aos impostos, desviar dinheiros públicos ou mentir perante a justiça, representa uma vergonha e humilhação para o acusado. Em Portugal é o contrário. A grande angústia de um português não é saber que há portugueses a fazer trafulhices. É não descobrir como conseguem os outros portugueses fazer as trafulhices.

Há dois tipos de portugueses. Há os portugueses que fazem as trafulhices. Depois, há os portugueses que não conseguem fazer as trafulhices mas cujo grande objectivo é saber como se fazem as trafulhices.

Daí os portugueses que fazem as trafulhices funcionarem como uma espécie de alter-ego ideal dos portugueses que não fazem as trafulhices, havendo mesmo uma cumplicidade afectiva entre eles. Valentim Loureiro será mesmo o avô que todos gostaríamos de ter. Vale e Azevedo e Fátima Felgueiras os tios que dariam luz e calor à nossa existência.

Eu acho mesmo que pode estar aqui a explicação para o facto de o código penal português ser assim tão simpático para os prevaricadores. Há um bocadinho aquela ideia de que são eles mas que poderíamos ser nós. Os próprios juízes são portugueses, filhos de portugueses, pais de portugueses e tios de portugueses. Enfim, como se navegássemos todos no mesmo barco e soubéssemos das angústias e ralações uns dos outros.

Existe, digamos assim, uma espécie de optimismo antropológico especificamente português que faz com que, em Portugal, o crime não seja bem um crime mas uma marca identitária graças à qual é cumprida a nossa própria natureza de seres humanos pouco inteligentes mas como esperteza para dar e vender.

Enfim, há portugueses que podem ter dificuldade em compreender que as epístolas não são as mulheres dos apóstolos, mas entram num banco, num tribunal, numa conservatória ou numa repartição de Finanças com a alma de um doutorado.

Claro que o facto de só alguns o conseguirem não é motivo de grandes preocupações para a maioria. Visto bem, em Portugal há também outros dois tipos de pessoas, coincidindo com os primeiros: há os portugueses que são felizes por serem injustos e terem prazer à custa da infelicidade dos outros e há os portugueses que são infelizes por causa da injustiça dos outros mas que vivem na esperança de virem a ser tão injustos e felizes como os outros e para os quais pensar na felicidade será já uma maneira de ser feliz.

Há uma edição do Górgias nas Edições 70.

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